Proposta pedagógica 1

“Minha poesia é bipolar:

ora com um sorriso no rosto, / ora com uma pedra na mão”

 

Enfatizar em um espaço livre de debate a potência que textos curtos podem alcançar. Dê outros exemplos e solicite referências dos próprios alunos, independente da fonte: rua, música, panfleto, frases em redes sociais.

Posteriormente incentive a produção de textos curtos usando o recurso dos opostos. Sugestões:

 

Guerra e Paz

Amor e Ódio

Tristeza e Alegria

Quente e Frio

Pequeno e Grande

Pobre e Rico

Autoritário e Democrático e tantos outros.

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Proposta pedagógica 3

Poesia e música andam de mãos dadas. Lance o desafio a seus alunos já divididos em grupos de quatro ou cinco integrantes:

 

- Que tal musicar algum poema de Sérgio Vaz para depois mostrarmos para ele?

 

“Por conta da timidez

aprendi a beijar com os olhos.

Sorrir enquanto luta é uma ótima estratégia para

confundir os inimigos.

A vida sabe o que eu quero e fica se fazendo de difícil.

Pra quem tem medo de amar

um sussurro é tempestade.

Desconfio que a sorte não sabe onde moro. Azar o dela.

Quanto mais se vive menos se morre”

Proposta pedagógica 2

ANTES QUE SEJA TARDE

 

“Se não fosse tão covarde, acho que o mundo seria um lugar melhor pra viver. Não que o mundo dependa só de mim para ser melhor, mas se o medo não fosse constante ajudaria as milhares de pessoas que agem pelo mundo como centelhas tentando criar uma labareda que incendiasse de entusiasmo a humanidade. Mas o que vejo refletido no espelho é um homem abatido diante das atrocidades que afetam as pessoas menos favorecidas.

 

Porque se tivesse coragem não aceitaria as crianças passarem fome, frio e abandono nas calçadas, essas que parecem fantasmas, nos assustam nos semáforos com armas na mão, nos pedem esmolas amontoadas em escolas que não ensinam, e por mais que elas chorem, somos imunes a essas lágrimas.

 

Você acha que se realmente tivesse coragem aceitaria uma pessoa subjugar a outra apenas pela cor da sua pele? Do seu cabelo? Um poema é quase nada disso tudo.

 

Sou um covarde diante da violência contra a mulher, da violência do homem contra o homem que só no Brasil são 50.000 deles  arrancados à bala do nosso pacífico planeta. Que dizer da violência contra os homossexuais que são apedrejados nas calçadas das avenidas elegantes.

 

E se tivesse mais fé na minha humanidade de maneira alguma aceitaria que um Deus fosse melhor que o outro, mas sou tão covarde que nem religião  tenho, e minhas mãos que não rezam, já que estão abertas, poderiam ajudar a construir um templo onde caberiam todas elas, mas eu que não tenho fé nem em mim mesmo sou incapaz de produzir esse milagre.

 

De repartir o pão.

E porque os índios estão tão longe da minha aldeia e suas flechas não atingem meus olhos nem meu coração, não me importo que lhe tirem suas terras, sua alma, seus rios, e analfabeto de solidariedade não sei ler sinais de fumaça, eles fazendo guerra eu fumando o cachimbo da paz. Se tivesse um nome indígena seria Cachorro Medroso.

 

Se fosse o tal ser humano forte que alardeio por aí, não concordaria em aceitar famílias inteiras sem onde morar, vagando em busca de terra, ou morando em barracos de madeiras indignas penduradas nos morros, ou na beira de córregos. Não nasci na favela, mas meu coração é de madeira, fraco.

 

A lei condena um homem comum que rouba outro homem comum e o enterra na masmorra moderna, mas nada faz contra aquele político corrupto que rouba milhares de pessoas apenas com uma caneta, ou duas, e que de quatro em quatro anos a gente aperta-lhes a mão, quando na verdade devíamos cuspir-lhes na cara. E eu como um juiz sem martelo não faço nada além de condená-lo ao meu não voto. É pouco, já que sei onde eles se entocam. A lei é cega, mas acho que lhe fizeram transplante de órgãos numa dessas votações secretas.

 

Assisto a falência da educação e o massacre contra os professores e sei que muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima, fico em silêncio quando a multidão desinformada pede redução da maioridade penal, porém, mal ela sabe que se não educarmos nossas crianças vão ter que prendê-las com 16 anos, depois 14, depois 12, depois, não teremos mais crianças nas ruas. E elas, as ruas, serão tão seguras que a gente vai sentir falta das crianças. Época em que os brinquedos serão visitados nos museus.

 

Estão cortando as árvores, cortand as árvore, cortan a árvore, cort árv, co á... madeiraaaaa! E aceito a cara-de-pau dos donos das serras elétricas e sei que o machado está nas minhas mãos. Depois fico abraçando o lago poluído quando na verdade deveria estar mergulhado nele, assim como os peixes mortos.

 

Pago os meus impostos e sei que eles não fazem nada com eles, ainda assim faço propaganda da minha consciência tranquila. Desconfio que é essa tal consciência tranquila que está acabando com o mundo.”

 

Engana-se quem acha que os textos de Vaz sejam panfletários ou tematizem apenas a condição social dos excluídos e perseguidos por um sistema que seleciona e unge seus escolhidos numa chave elitista. Sua poesia pode ser lírica e sintética como uma gota de orvalho.

 

Inspire seus alunos através deste alívio poético de Sérgio Vaz e solicite que realizem seus próprios desabafos em forma literária de gênero livre.

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Sérgio
vaz

Baú de ideias

Proposta pedagógica 4

Enquadro poético

 

“Escrevo porque ouço vozes,

umas gritam de coragem, outras de medo,

e todas elas agitam em silêncio o meu coração.

Nada a ver com gramática,

estética, ética ou métrica,

escrevo porque em mim

a palavra é fio desencapado,

é elétrica.

A polícia acadêmica, quando enquadra,

não sabe ou esqueceu

que as ruas gritam livres

ainda que durma na calçada […]”

 

Na poesia Enquadro Poético Sérgio Vaz escreveu:

“as ruas gritam livres”.

 

Sugira a seus alunos fazer arte com o que grita na rua. Peça que escolham qualquer linguagem: texto, cena, música, desenho, grafite, fotografia… e dêem voz ao grito surdo que escutam diariamente!

 

Obs: Devido à diversidade de naturezas possíveis para concretizar essa atividade, sugiro que os alunos fiquem livres para trabalhar como quiserem: sozinhos, em duplas, trios. Afinal, diferentes formatos demandam diferentes necessidades.

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